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  • Leila de Oliveira

Sobre sentimentos e natureza







“O ser humano torna-se sujo pelo excesso de civilização. Sempre que tocamos a natureza, ficamos limpos. A vida natural é o solo que alimenta a alma.” Essas palavras são considerações de Jung, que já na década de 1950 demonstrava profunda preocupação com a natureza ao considerar os avanços da tecnologia e o rumo da vida moderna. Esse é hoje assunto diário em todo o planeta devido às catástrofes naturais provocadas pelas mudanças climáticas.resultantes da interferência do homem ao contaminar, derrubar, queimar e explorar de forma predatória e desordenada os recursos naturais.

A Ecopsicologia estuda o comportamento dos humanos, em busca de satisfação pessoal através do consumo desenfreado, eliciando diretamente a degradação da natureza. A moda e os modismos aliados à tecnologia, por exemplo, auxiliados pela mídia, são o maior estímulo para alimentar desejos de felicidade, que se tornam efêmeros assim que são adquiridos. Há muitas implicações nesse comportamento humano, originado mais pela carência afetiva do que uma carência real de conforto e sobrevivência.

Mas também podemos tecer considerações sobre o afastamento do ser humano não só da natureza que nos cerca mas,e principalmente, de nossa natureza interna. Ao longo de minha carreira como Psicóloga Clínica, observo que as pessoas não se conhecem, dizem não ter tempo para divagações e considerações internas, não pensam sobre si e muitas não reconhecem as próprias emoções.

Observamos os jovens de hoje, grudados a seus celulares e tablets, muitas vezes alheios ao ambiente e às pessoas, mais solitários e individualistas, pouca conversa olho no olho. Deveriam aprender, treinar e aplicar o conhecimento de si próprio e do outro, mas o estilo de vida atual não fornece o tempo necessário ao núcleo familiar para que esse desenvolvimento ocorra com afeto e em situações que promovam o aprendizado .Nesse contexto, as próprias emoções e os sentimentos em relação ao próximo não recebem a devida importância, como a compaixão, a gratidão e o colocar-se no lugar do outro. Assim, assertividade e autoconhecimento não se desenvolvem de forma adequada, o que vai implicar em desajustes sociais, profissionais e pessoais na vida adulta.

Algumas escolas já estão ensinando crianças bem pequenas sobre os sentimentos que vivenciamos, como lidar com eles, como ser assertivo e também olhar para os sentimentos alheios. Isso é fundamental para que elaborem o autoconhecimento, observando os próprios sentimentos e aprendendo a lidar com suas dores e alegrias.

Há um grande movimento de conscientização, que encontra alta aceitação por parte dos jovens, por exemplo, sobre a preservação do planeta e seus recursos naturais, sustentabilidade, cuidado com os animais, domésticos ou não, diversidade cultural e de gênero e uma liberdade de escolha de modo de vida segundo o que para eles é sinônimo de felicidade.

Esse assunto complexo encerra, na verdade, a necessidade urgente do retorno a uma conexão maior com a natureza interna e externa, com o respeito à natureza selvagem e à humana. A tecnologia e os avanços da ciência são extremamente benéficos e certamente contém respostas ainda não decifradas para que possamos viver bem, sem prejudicar e destruir o planeta, reaproveitando recursos e conscientizando sobre o consumo.

O que fazemos com o conhecimento e novos recursos, porém, está no equilíbrio, na correta avaliação de nossos sentimentos, desejos e necessidades reais.. A tão desejada felicidade, apesar de ser um estado interno, está atrelada a valores muito maiores como gratidão, compaixão pelo próximo e pela valorização de tantas belezas naturais de flora e fauna desse planeta exuberante, diverso e fascinante.

Leila de Oliveira

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